Camará
No início da noite de 17 de junho de 2004 a Barragem de Camará, localizada no município de Alagoa Grande, região do Brejo paraibano, se rompeu. O avanço das águas inundou as ruas das cidades de Alagoa Grande, Areia e Mulungu, deixando cinco pessoas mortas e 3 mil desabrigadas.
Em um período que todos se preparavam para festas juninas, comer milho, acender fogueiras, a força da água apagou tudo.
Como qualquer tragédia, as imagens dos dias seguintes foram de destruição, tristeza e perdas. Mesmo não tendo ido na época presencialmente ver o impacto do acontecimento, aquelas cenas pela TV me impactaram além de todo horror que tal situação traz, pois sou também do brejo, nascido em Areia, caminhei por aquelas ruas em minha infância.
Quase dez anos depois estive em Alagoa Grande a trabalho pelo projeto Paraíba Cine Senhor, de oficinas sobre audiovisual, pude acompanhar relatos de moradores sobre o ocorrido durante a gravação de um documentário feito pelos alunos e mesmo tendo visto fotos e vídeos do fato, nada supera ver os rostos, as lágrimas e o relato falado diretamente.
Foi um sentimento estranho estar no local de tão forte catástrofe e olhar como a cidade se recuperou estruturalmente, afinal a memória e os corpos de quem sobreviveu nunca se recuperam completamente, com toda uma nova geração de pequenos moradores andando por onde por um tempo só água tomava conta.
Esta sensação estranha foi o que me inspirou a fazer o texto abaixo para o Módulo de Crônicas da Pós em Escrita Criativa que estou fazendo (como contei aqui). A crônica rodou desde 2013 em minha cabeça, como um arbusto que tem o seu tempo de crescer e tomar o mundo, mesmo sendo pequeno.
Enquanto os garotos jogam bola
Há certa magia em fins de tarde, principalmente naquele momento que os cineastas adoram chamar de “hora dourada”. Aqueles minutos quando o Sol está descendo seu caminho ao se pôr e os raios amarelados banham a cidade dando um ar de fantasia a vida.
Dentre as várias dessas horas que pude conferir ao longo desses meus quarenta anos, uma que ficou forte em minha mente veio do interior nordestino, mas não de lajedos sertanejos, como poderiam supor facilmente, mas sim da pequena cidade do brejo paraibano de Alagoa Grande.
O município é cheio de casas antigas, prédios históricos e ruas com um calçamento que pode estragar qualquer sapato de salto alto que se atrevesse a caminhar por ele em uma ida a missa. O amarelo do fim da tarde caía quando sentei na escadaria externa do teatro local e observei dois garotos começarem sua diversão de chutar uma bola de futebol de um lado ao outro.
Como em qualquer canto desse país, o barulho da bola transformou dois em cinco, logo seis e, por fim, oito meninos sem camisa com pés descalços divididos em dois times, desafiando dibres, defesas e paralelepípedos. Crianças que pairavam em idades um pouco abaixo, um pouco acima de dez anos, não eram nascidas ou ainda muito pequenas quando aquele chão, aquelas ruas, foram invadidas por águas vazadas da Barragem de Câmara, quase uma década antes. O mundaréu de líquido saiu arrastando árvores, postes de energia elétrica, casas, objetos, pessoas, memórias e sonhos.
Ali sentado, vi o resto de luz do dia encantando um chute ao gol, improvisado com chinelas, e a comemoração infantil de quem o mais importante naquele momento era a façanha de superar um obstáculo.
“Baseado em fatos reais”
Um dos tipos de ficção que eu mais curto são aqueles baseadas em fatos reais que usam essa base e se permitem brincar com ela e até extrapolá-la, claro que com todo cuidado ético de não sair popularização a ficção acima da realidade. O mais recente filme do roteirista e diretor Richard Linklater faz isso muito bem: Assassino Por Acaso.
O filme fala sobre Gary Johnson (Glen Powell), professor de filosofia na universidade que nas horas vagas trabalha para a policia local pegando pessoas que contratam um mercenário que não existe para matar alguém. Por circunstâncias do destino, Gary acaba tendo que interpretar tal assassino, a partir daí passa a investigar as vítimas para compor melhor seu personagem.
Linklater e Powell brincam bem com a ideia de “assassino personalizado” que o filme cria, onde o protagonista se transforma em uma persona que acredita se adequa melhor a personalidade do cliente e, assim, o deixaria mais aberto para fazer a encomenda - sendo logo após preso por isso. No meio da trama, o roteiro mistura essa coisa mais policial com comédia romântica de uma forma fluída e interessante - também apoiado no talento da coprotagonista Adria Arjona.
É muito legal ir assistindo e pensando “isso não aconteceu de verdade”, “duvido que tenha acontecido”, e, mesmo assim, o filme seguir nos deixando nessa dúvida constante sem perder a graça da brincadeira.
Mais um acerto de um dos meus ficcionalistas preferidos no cinema!
A Mim, Meus X-Men
Para fechar esta edição: acabou a temporada de X-Men 97, terminou a fase de Krakoa nos gibis dos X-Men e estou triste porque os tais vindouros filmes dos mutantes feitos pela Marvel Studios e Disney nunca chegarão nem perto do que foi feito nestas duas produções.
Gostou do que leu?
Que tal então espalhar a palavra de meu mundo em abismo? 😊
Uma boa semana pra você!
Marcelo.




